domingo, 31 de março de 2013

MULHERES QUE PEDEM PASSAGEM




NOSSA PÁSCOA


Nossa páscoa não tem sido fácil, passar, abrir passagem, caminhar.
Aprender e dividir.
Todas juntas, porque qualquer diferença aqui é mera ignorância.
Durante o mês de março, abrimos as portas da Cozinha para mais um Chá, regado a realidade das mulheres ciganas no Brasil e no mundo.


Recebemos amigas e poemas, contos foram contados e elas, as futuras mulheres de amanhã estavam lá. Sem saber ao certo o que fazer, elas dançaram e brincaram.
Nos poemas e contos, a vida de quem atravessou muitos trechos difíceis, mas enfim, atravessou. Juntas podemos ir mais e mais longe, juntas podemos avançar e construir pontes, dançar e cozinhar, pois a única coisa que nos separa, a todas nós, ciganas ou não; é a oportunidade. Então, vamos construí-la,
Mãos a obra e uma feliz páscoa a todos e a todas.




Nós Somos


(por Júnia Puglia)

Minha irmã tinha menos de dois anos quando demos pela sua falta. Era um dia como outro qualquer, mas tudo virou de pernas para o ar quando percebemos que ela não estava em casa, nem na vizinhança. Naquele tempo, as crianças brincavam na rua e os vizinhos eram a família estendida, então todos os adultos ficavam de olho em todos os pequenos.

Eu tinha quatro anos na ocasião. Não tenho uma lembrança detalhada do que aconteceu, mas trago bem registrados o desespero dos adultos, principalmente dos meus pais, e os esforços de todo mundo para encontrar a menininha, que não poderia ter ido muito longe, inclusive porque fazia poucos meses que havia aprendido a andar.Lembro também do principal medo, repetido a toda hora: que ela tivesse sido levada por ciganos. Um grande grupo havia chegado à cidade não muito antes, e eram considerados uma terrível ameaça à comunidade, especialmente às crianças. Tínhamos pavor deles.

A menina foi encontrada em poucas horas, e os ciganos não tinham nada a ver com a história. Nem com nada mais na nossa vida, pois os caminhos jamais se encontraram. Eles eram parte de um mundo misterioso e ameaçador, do qual nem chegávamos perto.

Ainda é assim. Muito melhor do que eu, vocês conhecem os olhares desconfiados, a convivência tensa e a sensação de não-pertencimento com que seu povo é quase sempre recebido, quase em qualquer lugar. Aliás, não sei se existe um “lugar de ciganos”, uma pátria, além do estilo de vida nômade, tão malvisto e tão invejado por tanta gente. Em suma, não sei quem são os muitos ciganos e ciganas que encontrei pela vida afora.
Mas algumas coisas eu sei sobre as mulheres ciganas, porque vêm dos tempos de antes, muito antes. Sei que estamos todas juntas, na mesma carroça, e nos entendemos muito bem, quando falamos das dores e das delícias de ser mulher. Compartilhamos o esforço para sermos levadas a sério em nossas aspirações ao respeito com que todo ser humano deve ser tratado, independentemente do sexo, e a frustração de sermos freqüentemente tratadas como pessoas de segunda classe; conhecemos a mesma raiva por termos nossos direitos básicos desconsiderados sem nenhuma cerimônia, apesar de serem assegurados em leis nacionais e internacionais; muitas de nós vivem na carne e na mente a violência que nos atinge pelo fato de sermos mulheres, consideradas propriedades dos homens das nossas vidas, pais, irmãos, filhos, maridos, namorados, amantes; nossos corpos sofrem a mesma dor quando são violados e feridos por ataques sexuais ou mesmo por um modelo de beleza que nos obriga a verdadeiras amputações em nome da escravidão a uma hegemonia cruel.

Estamos juntas quando celebramos o poder que brota dos nossos úteros, permitindo que a vida humana se perpetue; e também quando somos as únicas responsáveis pela criação dos filhos daqueles homens que não perceberam o privilégio de transmitir-se para o futuro. Nossas energias se unem quando decidimos tirar o máximo de proveito do que a vida nos oferece, quando escolhemos a vida que queremos viver. Somos uma só quando juntamos nossa alegria, passamos um batom vermelho nos lábios e um pente nos cabelos e comemoramos a mulheridade. Este é o sentido mais belo e profundo de estarmos juntas. Distâncias ou diferenças inexistem.
Uma grande poeta brasileira, dessas porretas mesmo, chamada Adélia Prado, esculpiu um brilhante chamado “Com licença poética”, que diz o seguinte:

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado para mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.


Não sou tão feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

dor não é amargura.


Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

NÓS SOMOS!!

Júnia Puglia/16 de março de 2013



Bolinhos campestres
Massa básica de bolo, o recheio é que faz a diferença.
O de chocolate tem café e rum, o de laranja tem gengibre e geléia de laranja. O bolinho de rosas tem doce árabe de rosas, aquecido com vinho e colocado no bolo de baunilha – na hora de ir ao forno, coloque uma colher de sobremesa do doce, que já vem pronto pra facilitar.


Contos declamados de Cecília Meireles  e Paputza por Andrea e Uliane.

CONTOS ROMANI – por Cristiane Moura (a direita da foto)
Do livro Contos Populares Ciganos – Diane Tong
p. 165, conto da Checoslováquia:
 O Enigma da Romni
(um presente da Livraria Lumiere/Porto, das mãos de uma grande mulher, a Cláudia)
Era uma vez uma Romni que tinha o marido na prisão e ela, coitadita, tinha ficado sozinha com o bebê. Era muito infeliz, com o marido fora de casa, e foi chorar para o tribunal para ver se lhe soltavam o homem.
Ora o juiz disse:
- Olha lá, solto o teu marido se me contares um enigma que eu não saiba resolver.
A Romni foi para casa, sempre a pensar muito num enigma que o juiz não conseguisse resolver. Para comer só tinha um naco de pão enquanto andava de aldeia em aldeia. Ao passar uma ponte, parou, tirou o pão e ficou em pé a comer o pão e a dar o peito ao bebê. Imas migalhas caíram na água e foram engolidas pelos peixes. Não só isso como também umas aves iam a voar no céu piavam de fome. Ora, toda a gente quer comer, não é? Portanto, a Romni atirou também umas migalhas às aves.
Então a Romni deu meia volta e regressou ao tribunal.  
E disse ao juiz:
- Saiba vossa senhoria que lhe trouxe um enigma:
Que é que é
Que como eu e de mim come
Comem em baixo e em cima comem?
O juiz pôs-se a pensar, mas não soube dizer. Então, cha,ou uns decifradores de enigmas conceituados, mas eles não souberam resolver.
-Pois bem, Romni – disse o juiz -, explica o teu enigma e , se for verdade, o teu marido pode sair. Nós não sabemos a resposta.
- Ouça vossa senhoria, é assim:
Eu na ponte como pão
O filho em mim a mamar
Os peixes comem a nadar
Os pássaros o que lhes dão
“Toda a gente quer comer, tudo o que vive quer comer. Então o juiz viu que a Romni tinha razão e deixou ir o marido dela para casa.



As tortilhas são de milho, frango e queijo e são chamadas de Peruanas. Não levam farinha, apenas queijo, ovos, temperos, nata fresca e ricota.

Na sala ao lado, uma exposição de 30 fotos da realidade das mulheres de etnia cigana no Brasil.

Cerca de 55 mulheres e suas meninas estiveram por lá,
partilhando, construindo e dividindo,
essa condição divina de ser mulher
e a possibilidade de ser e estar, junto e a frente de seu tempo.
Caminhar, pois andar é preciso.



Nós, mulheres da AMSK

 


Cozinha dos Vurdóns
um projeto da AMSK/Brasil

terça-feira, 26 de março de 2013

M' HALLABYE

M’Hallabye

(um Manjar Branco das Arábias)

Comida de Reis

Doce Dedo de Deus

...

e assim por diante. Pra nós, simplesmente divino.

Comece por hidratar em água:

1 xícara de Chá de Damascos fatiados com 1 colher so sopa de água de flor de laranjeira. Faça isso por 1h.

Enquanto ela discansa, coloque no fogo 1 litro de leite deixe ferver, desligue e acrescente e 2 colheres de sopa de maizena. Misture e volte ao fogo baixo. Deve engrossar.

Quase no final, ponha duas colheres de açucar e duas de flor de laranjeira.

Fica longe de endurecer. Não se preocupe.

Numa frigideira coloque 2 colheres de sopa de açucar e deixe caramelizar.

Acrescente os damascos e vá mexendo em fogo branco - sem á água.

Acrescente a água que ele ficou e espere que a calda engrosse em ponto fraco - não pode endurecer.

Reserve o manjar na vasilha de servir e vá colocando a calda por cima até cobrir o manjar.

Guarde na geladeira pelo ao menos 3 hs antes de servir.

E coma pra valer ... fica leve e é fácil. Uma boa opção para a páscoa. Essa receita já rodou o mundo e essa é a nossa versão.

Cozinha dos Vurdóns

sexta-feira, 22 de março de 2013

CALON E ROM - JUNTOS, RUMO AO FUTURO

OS Rom de Aparecida de Goiânia (Família Castilho/Caldarash), Os Calon de Planaltina de Goiás (A família Rocha - Sr. Wanderley e Sr. Jeferson - irmãos e primos), os Calons de Sobradinho - (Capitão Elias e família), A Cedro na pessoa da Cigana Maura Piemonte e a Representante dos ciganos na CNPIR e a AMSK/Brasil.
Quando a liderança se encontra e compreende que somos todos iguais, as dificuldades começam a encontrar a saída.
Todos estavam lá, para fazer valer a sua presença, para se mostrar perante o governo e poder gritar ... EXISTIMOS E PRECISAMOS DE AJUDA, PRECISAMOS DE UM ESTATUTO QUE VIABILIZE NOSSOS DIREITOS, PRECISAMOS SER OUVIDOS E PRECISAMOS LUTAR POR POLÍTICAS PÚBLICAS QUE NOS RECONHEÇAM COMO CIDADÃOS DE FATO E DE DIREITO.
 Fotos AMSK/Brasil

Esse foi o primeiro passo e por isso "Hoje a cozinha dos Vurdóns está feliz". 
Esse é o nosso BRASIL ROMANI

quarta-feira, 20 de março de 2013

SEPPIR - UMA RECEITA DE SUCESSO

 PARABÉNS SEPPIR PELOS 10 ANOS

PORQUE IGUALDADE RACIAL TEM QUE SER PRA VALER.




Pois bem, nossa receita de hoje é assim.


Depois de ascender o fogo e por a panela pra esquentar, precisamos cuidar de manter o fogo sempre ali, forte, vibrante, resistente à chuva e as tempestades. Nossa refeição será servida ao ar livre porque precisamos respirar e com isso, mantermos nossos olhos bem abertos, afinal de contas, não pode faltar ninguém, teremos de enxergar a todos.

São horas de cozimento, homens e mulheres ali, revezando a tarefa de temperar bem, sovando e amassando as esperanças; como se faz com o pão, aquele de cada dia. Criando receitas que alimentam o corpo e a alma, receitas que unem mais do que idéias, receitas que ajudam a recriar as cores do nosso país. 


Pra fazer valer esses 10 anos de caminhada, vamos juntos, todos nós, de braços dados com a SEPPIR, construir e participar da pauta dos povos romani - os assim chamados ciganos. Porque a única forma dessa receita dar certo e do nosso pão crescer, é unirmos esperança, trabalho e coragem, é sentarmos todoas e todos juntos, envolta da mesma mesa, da mesma fogueira e juntos fazer dar certo.

Cozinha dos Vurdóns 
na construção de políticas públicas para o Povo Romani no Brasil, por um BRASIL ROMANI. 

quarta-feira, 13 de março de 2013

Arroz de Camargue com linguiça defumada e pimentões

com alecrim e azeite e o passo a passo em fotos
Esta receita é super rápida e prática. Mas tão perfumada, que é perfeita para aqueles dias de correia, onde precisamos de uma pitada de inspiração.

Ingredientes:

1 e 1/2 xícaras de arroz de Camargue
2 Linguiças defumadas picadas
1/2 pimentão vermelho picado em cubinhos
2 colheres de sopa de azeite de oliva
2 dentes de alho
Alecrim a gosto
Sal a gosto
uma pitada de pimenta-do-reino (opcional)

Preparo:

Pique as linguiças defumadas. Coloque o azeite de oliva e o alecrim na panela e aqueça em fogo baixo, para que o sabor do alecrim se espalhe no azeite (não deixe fritar, apenas aqueça).  Junte as linguiças picadas e deixe que dourem bem. Acrescente por último o alho (não coloque antes da linguiça estar dourada para que não queime), o pimentão e a pitada de pimenta-do-reino (opcional). Deixe o pimentão soltar um pouco de líquido (para que seu sabor adocicado permeie todo o prato), mas não deixe que doure (assim fica com seu sabor mais definido e é de mais fácil digestão). Acrescente o arroz e refogue. Acrescente a água e deixe cozinhar. Ele fica realmente perfumado e com um colorido apetitoso.

Dicas:

- O arroz de Camargue é fino e comprido, mas com um perfume característico. Se você quiser seu arroz mais soltinho, coloque a água e não mexa mais. Se quiser com uma certa liga Você pode usar o arroz de sua preferência, inclusive um arroz específico para risoto.

- usamos a linguiça calabresa, mas você pode usar a linguiça de sua preferência (como a portuguesa, por exemplo). O importante é que seja defumada, pelo sabor característico.

- usamos o pimentão vermelho por ser mais adocicado. Você pode usar o pimentão verde, mas este terá um sabor mais amargo.

- o azeite é a "alma" do seu prato. Então, faça testes e descubra  que tipo lhe agrada mais (os mais perfumados, os que tem sabor mais presente, os mais suaves, etc). Hoje em dia existe muita variedade nos mercados, com preços acessíveis e de várias partes do mundo. Talvez você descubra que prefere um para cozinhar e outro para temperar as saladas, por exemplo. Experimente. Divirta-se.


Cozinha dos Vurdóns

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