quinta-feira, 30 de junho de 2011

REALIZAÇÕES DE UMA COZINHA CHEIA DE VURDÓNS



Hoje é dia de comemorar, sempre o é.
Agradecer o caminho pelo qual passamos e aos que lado a lado construiram conosco um mundo com menos preconceito, aprendendo o que é diversidade, dia após dia.
Essa perspectiva de dias melhores, respaldada por ações que alcançam a prática, fazem parte do trabalho da AMSK - Brasil e todo o seu corpo técnico e aqui com a parceria da CEF 104 N.

Hoje é um dia como outro qualquer e por isso mesmo é um ótimo dia para começar a andar, a construir, a pensar, a se posicionar diante da vida e esperar que ela se posicione diante de você.

Não existe apenas uma verdade absoluta sobre essa etnia, existem seres humanos Rhons, Sinti, Calón, Ciganos, um povo e uma nação, diferentes entre sí, que buscam respeito e dignidade para cumprirem seu papel no mundo.

A discriminação e o preconceito já fizeram muitas vítimas ao longo da história. A intolerância seja ela de cunho social, religioso ou filosófico coloca a cada dia que passa mais mulheres e crianças na linha da miséria, do absurdo da fome e da falta completa de um futuro digno.


O mesmo destino imposto a Sara – a Kalí, (séc.I) ainda permanece em boa parte do Leste Europeu, Europa, nas Américas. . . no Brasil.



“A fome, a violência, a intolerância e a discriminação nunca foram, não são e nem poderão ser a herança de um povo, são o retrato cruel e desarmônico de alguns poucos ao longo dos séculos com a impotência de muitos que se calaram.”
 
AMSK/Brasil

 Cozinha dos Vurdóns 
DEUS ABENÇOE TODOS OS CIGANOS E NÃO-CIGANOS DO MUNDO.
(THIE BLAGOIL O DIEL SAR LE ROMEN TAI LE GAGEM KATAR LE LUMIA.)



terça-feira, 28 de junho de 2011

ARROZ DE FRANGO AO QUEIJO E AMENDÔAS E SALADA DE LARANJAS.

Mais uma reunião e lá vamos nós ... tem almoço na cozinha. Tem que ser rápido, saboroso e aquecer as idéias, afinal de contas nessa cozinha se discute muitas coisas. 
Então, vamos conversar enquanto cozinhamos.


Deixe 1 cebola cortada em rodelas de molho em água fria e ponha uns cravos também, tira a acidez dela, e vá cuidando do restante.


No Parlamento alemão, cigano lembra o "Holocausto esquecido" (Quinta-feira, 27 de janeiro de 2011_ e sobre DESCENDÊNCIA - Série dos indivíduos que procedem de um progenitor comum; progênie.



Eis um assunto difícil e incrivelmente complicado. Acreditem no Brasil é assim. Nomes feios como xenofobia são disfarçados e colocados de lado, existem sites, blogs e afins que colocam a vida das pessoas num patamar pequeno e banalizam o preconceito, o racismo de dentro pra fora e vice versa. É; a vida deveria ser simples sim, mas o ser humano não permite tal tranqüilidade.


Como saber as descendências depois da Segunda Grande Guerra? Pra que saber? Quem é mais ou menos cigano, rhom (outro problema esse de língua – Rom), Sinti, Calón e por aí vai. Como julgar um sobrevivente que optou depois de perder toda a sua família; mudar o rumo da vida e da própria história. Alguém por acaso se esquece do que é feito? E os que foram repatriados, separados logo nos primeiros dias de vida?

Como apagar imagens que não podem ser reconstituídas no presente? Como lutar dentro desse novo parâmetro no meio da família? Difícil de responder? Difícil de viver.

Para o arroz - 5 pessoas.

2 filés de peito - grandes e sem osso,
4 linguiças defumadas de frango,
Pique tudo e coloque numa panela com 1 colher de azeite, 1 de salsinha fresca, 1 de sal e 1 de alho picado. Refogue.
Refogue tudo muito bem e coloque 2 dedinhos de água, tampe a panela e vá preparando o restante.


Uma coisa é certa. Em qualquer rumo que a vida nos leve, quando optamos por um norte definido e preciso, iremos sofrer represálias. Isso é fato. É fato também que isso ocorra de ambos os lados. Porque? A dita verdade. Sempre haverá um ou outro procurando a superioridade. E é nesse momento que se cria a manivela dolorosa, gigantesca e destrutiva que chamamos de estereótipo. Ao alargarmos nossa conversa nos deparamos com a estrutura familiar e escolar. Homem não chora, homem não usa saia, cigana só anda de saia, todo cigano é ladrão, mulher tem de usar cabelo comprido, assim demarcamos nossos territórios, são tantos os exemplos que seriam necessários dias em torno de suas colocações. Isso de dentro e de fora de qualquer grupo étnico precisa e deve ser combatido.



Faça um copo de chá de flores mistas com canela e cravo (1 copo de água e 1 colher de sopa de flores), coe e reserve.


Numa outra vasilha coloque: 1 bisnaga de requeijão culinário, 1 colher de sopa de queijo ralado e 3 de amêndoas tostadas. Misture bem e reserve.
Coloque agora 3 xícaras de arroz lavado, o chá coado, 1 xícara de ameixas pretas picadas e sem caroço, 10 azeitonas pretas picadas e sem caroço, 1 colher de sopa de orégano. Refogue novamente, acrescente o chá e deixe secar. Acrescente um copo de água e quando estiver quase seco, acrescente a mistura de queijos. Mexa e abaixe o fogo por 10 '.
Coloque lascas de amêndoas por cima e sirva.

Reafirmamos nosso trabalho de formiguinha mais ainda. Seja na dança, nos projetos, na cozinha, na vida. Não é fácil, não foi e não será. Como cada qual tem sua porteira nesse imenso mundo de meu Deus; lá vamos nós.

Sabe a cebola que ficou de molho? Escorra a água, pique 4 laranjas e regue com o suco de uma, junte a cebola, azeitonas pretas e tomates cerejas. Tempere como quiser, aqui colocamos um pouco de pimenta do reino, azeite, sal grosso e suco de laranja é claro.




Esse foi um almoço de constatações, alegrias, tristezas e realizações, afinal a vida é feita disso mesmo. Muitos descendentes não caíram das carroças por acaso, existe uma vida por trás disso, são como os filhos do meio, são uma mistura de pai e mãe e talvez por isso possam ter aprendido a andar no tempo do vento, construir ferramentas inéditas e compreender e respeitar os dois lados de uma mesma moeda. Nem mais nem menos. Apenas isso. 

E gente, não é por nada não, tava muito bom.

Cozinha dos Vurdóns, 
alicerçando o nosso pão do dia a dia. 


domingo, 26 de junho de 2011

UM PORTUGAL NO CORAÇÃO DA COZINHA DOS VURDÓNS


Estamos aqui no 6º post sobre a nossa estadia em Portugal e é hora de pegar o vôo para a França.
Não foi fácil partir de Portugal e isso é uma constatação. 
O coração e a mente são livres e por isso não obedecem ao corpo e nem ao peso das malas. 
Nossas receitas são de saudade, beleza e um enorme carinho que não cabe nas páginas desse blog, mas temos de tentar.
Saudade é o amor que fica.

Estação do Oriente/Lisboa



Assim entre a nova arquitetura e as velhas águas estávamos lá, até que enfim. Conhecimento e modernidade, as ramas a florecer. Silenciosas ninguem as via por lá, como as águas, memória e vida. Foi bom respirar.

Santa Luzia

A caminho do Castelo de São Jorge



A gente sabe que ir ao Castelo de bondinho é maravilhoso, ir a pé é divino.


Uma gente que não preço.


 Se não, teríamos perdido esse sorriso e teria sido sem dúvida uma grande perda pra nós. Como se chama? Não sabemos, mais decidimos chamá-la de DIGNIDADE.






Do largo do Contador
  


Andar e respirar, ouvir o vento. Lá falamos com o vento. As ruas estão vivas, as flores sorrindo pelo caminho a fora. Lisboa vive.










A harmonia que permanece, num equilíbrio quase imperceptível. Tempo, se precisa de tempo para enxergar, bem mais que de olhos.
E assim saímos por entre as ruas, sem passeios turísticos programados, Portugal é um país que deve ser vivenciado e não só visitado. Descobrimos isso em Lisboa.

Em frente ao café Nicola -  a praça do Rossio


Nesse exato ponto, trasformamos um sonho em realidade e descobrimos que realmente somos feitas de sonho. Maktube - estava escrito.
Aqui se encontraram uma cozinheira e um Falcão. E não há nada no mundo que apague essa lembrança.




A Mosteiro de São Jerônimo, seus jardins e suas fontes.
História, jardins e água.
Lisboa respirava e nós respirávamos com Lisboa.
Conhecer e saber que existe é importante, constrói e contribui para a cultura de uma pessoa e de um povo. Entendemos um pouco mais a névoa triste nos olhos desse povo. É mais que viver do passado. Existe um sentimento que transforma monumentos sólidos em reais possibilidades, batalhas já perpetuadas em perseverança de conquistas atuais.
Ter hoje a sua direção rumo ao futuro, gravada em solo firme, de um povo sem igual.


"O céu de Portugal é composto pelo brilho de sua gente, e pela memória dos seus anjos".

E assim partimos de Lisboa, carregando A Severa, o Róssio, alguns versos de Camões, uns pastéis de viagem e um Falcão voador. Encontramos famílias ciganas de etnia Calon vendendo seus chales bordados (não tivemos autorização de fotografá-los), eram 6 mulheres, 2 homens e 3 crianças. Ouvimos algumas músicas, alguns versos poéticos sobre os ciganos de Portugal. Estatísticas, dificuldades e diferenças, lições sobretudo de uma etnia que fala de suas conquistas e tem os olhos abertos para os problemas de ambos os lados. 
 Da Estação do Oriente em Lisboa a Tunes e de lá a Portimão.

Aqui nossa pesquisa gastronômica começou, aqui encontramos roms.

Praia da rocha, andar e pensar, observar e registrar. Quantas vezes passamos pelo mesmo lugar e não nos damos conta. Descobrimos que as barreiras são construídas por nós mesmos e aqui muitas cairam por terra.


A caminho do mar - praia da rocha
Praia da Rocha
Forte de Santa Catarina
Forte de Santa Catarina - Portimão
"Compreender um sentimento dentro da dança, hoje danço assim, com um pouco de Portugal em mim. Um país que cheira alecrim, jasmim e rosa de santa Terezinha.""Grupo Sara Kalí - Prof. Lucimara"



"Poder escutar, trouxemos um pouco de Dª Inácia conosco e suas receitas, de vida e de comida". Bertha e eu
Entretanto, gostaríamos de apresentar uma família que nos proporcionou momentos de muita alegria, muita realidade e da qual guardamos imensa saudade.

Em frente ao Marisqueira Restaurante – Humberto’s, em Portimão encontramos uma avenida que se não fossem por suas falésias seria literalmente a beira mar. Nesta calçada se encontram muito bem montadas umas bancas, todas bem projetadas e organizadas, devem ser umas 10 ao todo. Ali se pode comprar roupas, sapatos, bolsas, colares, pulseiras e brincos. Tem artesanato de conchas e bolsas de viajem. Ali se encontra a família do senhor Carlos ou boa parte dela.

Chegavam as 9:30 da manhã e por lá permaneciam até as 20:00 hs. Seus rostos mostram a expressão de anos na construção de uma vida melhor pra si mesmos e para seus. O mais bonito na colocação do Sr. Carlos é, somos daqui de Portugal mesmo, nascemos aqui, somos Portugueses. Trabalhando no comércio de roupas, seu filho de nome Carlos também, trabalha com sapatos, ele, a esposa e os dois filhos. A filha também trabalha no comércio de bolsas e blusas junto com o marido e seus filhos e ainda há outras barracas de brincos, colares e pulseiras. 

Ali passamos horas conversando sobre as condições atuais dessa etnia ou parte dela que vive em Portugal. Falamos sobre as várias feiras que eles têm de trabalhar para garantir o sustento da família e poder mandar os filhos para as escolas. Essas crianças são visivelmente de uma desenvoltura acima da média de suas idades, falam muito bem, se apresentam com clareza e conversam sobre o tema que lhes é proposto até com certa desconfiança no início, que termina ao primeiro sorvete de casquinha... crianças só isso. 

A falta de condição de emprego fixo se dá, segundo eles, pela discriminação quanto a sua etnia, mais nem por isso esmorecem, se dividem em duas ou três feiras e vão levando a vida. 

Sr. Carlos e Dª Sabina em companhia de uma de suas filhas.
Conversamos sobre as condições de vida e residência deles. Já não são mais nômades, possuem endereço fixo, residência própria. Hoje se deslocam mais para participarem de feiras maiores que acontecem de vez em quando em cidades vizinhas, mais tudo dentro de Portugal. Durante um tempo o Sr. Carlos veio regularmente ao Brasil, em São Paulo, quando valia mais a pena o comercio por aqui e havia mais vantagens nas vendas. 

Reconheci seu brinco, disse Dª Sabina, esposa do Sr. Carlos, é antigo demais, ouro vermelho, 24, não se encontra mais, não se faz mais, só as mulheres da nossa geração pra trás já viram um assim. Prestei logo atenção e todas nós comentamos que vocês deveriam ter alguma coisa com nosso povo. Ela estava certa, esse brinco está a mais de 100 anos na família e agora comigo. Dª Sabina está visivelmente cansada e aparentemente anda tendo problemas de saúde. Ainda existe uma forte resistência dessa etnia de procurar postos de saúde e atendimentos médicos preventivos.  Esse é um assunto delicado e cheio de motivos e razões, entretanto um deles – Carlos o filho mais velho da Dª Sabina teve problemas pulmonares que o levaram a internação, sua esposa nos contou que receberam toda a assistência e que ele já está melhor, mais teve de passar uns bons tempos internado. Agora tudo já está voltando à normalidade.

Conversamos ainda sobre os remédios caseiros, a tão famosa medicina cigana, dos Rhom, Sintis e dos Cales (dentre outros), essa já anda muito desaparecida, como a língua, pouco se tem preservado das bases. Conversamos sobre cozinha... Afinal essa é a nossa praia e foi tudo muito bom. 



O comércio não anda bom nada, vai melhorar depois do dia 15 de junho, o jeito é torcer e rezar. E foi abençoando - os e sendo abençoadas que partimos no dia seguinte de Portugal, e não foi à toa que nos lembramos de  uma receita "AMEIXAS ou TÂMARAS RECHEADAS”.




AMEIXAS ou TÂMARAS RECHEADAS:

20 ameixas pretas sem caroço e abertas ou 20 tâmaras abertas e sem caroço,
Recheio: queijo mourisco amassado com o garfo (mais ou menos 5 fatias grossas) e temperado com molho de alho e azeite. Recheie as ameixas ou tâmaras abertas e coloque uma castanha em cima. 


 E para além de qualquer outra coisa, são esses os aromas e essas as imagens que passaram a fazer parte das nossas vidas: Cozinha, pesquisa, dança e saúde.

Com carinho, graditão e saudade. Um grande beijo das cozinheiras, ou melhor 5 ...

Cozinha dos Vurdóns

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

SOU CIGANO - Bruno Gonçalves